Proibições
de ingredientes e até de nomes de produtos por parte do Ministério da
Agricultura vêm barrando a atividade – e a criatividade – de
microcervejarias no país. No último ano, o movimento tem se
intensificado, impedindo lançamentos de novas cervejas e atrapalhando
até o processo de criação das bebidas.
O produtor Samuel Cavalcanti, dono da cervejaria Bodebrown, de
Curitiba, passou pelas duas situações. Na tentativa de criar sabores e
variações da bebida, já teve alguns de seus produtos barrados. Foi o
caso de uma cerveja que usaria lactose – o ministério não teria
entendido a função que o insumo teria na bebida e, por isso, proibiu seu
uso.
Episódio semelhante ocorreu com a DaDo Bier, de Porto Alegre. No
início do ano, ela foi proibida de vender uma cerveja com sabor de
chocolate. O problema apontado pelo ministério foi que não está prevista
a utilização de derivados animais, caso do leite em pó, na produção de
cervejas nacionais. Junto com sua parceira, a chocolateria Kopenhagen, a
DaDo Bier insistiu no projeto. Reformulou o produto, retirando o
ingrediente proibido, mas a bebida foi novamente barrada, por causa do
uso de outro insumo.
“A criação de produtos diferentes, inusitados, com novos sabores é um
dos maiores trunfos das cervejarias artesanais. Diferentemente do que
parte do Ministério da Agricultura pode pensar, não estamos
descaracterizando a cerveja, mas trazendo inovações para ela, como
ocorre no mundo inteiro”, diz Cavalcanti, da Bodebrown.
Nome perigoso
Há cerca de dois anos, a cervejaria curitibana foi aconselhada pelo
Ministério da Agricultura a alterar o nome de uma de suas criações, a
cerveja Venenosa, a fim de evitar possíveis mal-entendidos. A cervejaria
acatou a decisão e o produto passou a se chamar Perigosa. Outras
empresas do país também já sofreram com o problema ao registrar nomes
que fazem relação a outros produtos, como o chocolate ou a rapadura.
“Entendemos que o tema é novo e por isso a regulação do setor não
está completamente atualizada. Mas, ao mesmo tempo, o ministério
também não tem olhado para o tema com a atenção necessária”, afirma
Eduardo Bier, da DaDo Bier.
Contradição
Bier e Cavalcanti veem incongruências na regulamentação vigente, uma
vez que produtos importados com ingredientes e nomes já proibidos para
as cervejas nacionais podem entrar no país sem problemas. Para o dono da
Bodebrown, essa diferença no tratamento dispensado ao produto importado
e ao nacional evidencia que desentendimentos e proibições têm origem na
falta de adequação das normas à realidade das novas cervejarias.
“A nossa relação com os fiscais e, de forma geral, com o ministério, é
positiva. O problema está na regulamentação, que deixa muito a desejar e
atrapalha nossas atividades”, diz Cavalcanti.
Bares
O constrangimento chegou aos locais de venda dos produtos. Semanas
atrás, bares curitibanos foram visitados por fiscais do ministério e
tiveram de retirar algumas cervejas artesanais de circulação.
O responsável pela questão no Ministério da Agricultura não pôde
atender à reportagem quanto aos casos pontuais das cervejarias. Por
e-mail, o órgão afirmou que as inspeções vêm sendo feitas dentro do
cronograma anual da pasta e não teriam sido intensificadas nos últimos
meses.
Fonte: Gazeta do Povo
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