Como alguns de vocês devem saber, circulou nos últimos dias pelo
Brasil Gordon Strong, juiz cervejeiro (sim, existe essa categoria, e
não, o trabalho dele não é só uma maravilha…) e presidente do Beer Judge
Certification Program (BJCP), entidade norte-americana cujo guia de
estilos é usado como referência em concursos da bebida no mundo todo.
Depois de passar por Blumenau, no Festival Brasileiro da Cerveja, e por
Ribeirão Preto – onde penou com o calor de 37º C -, ele esteve em São
Paulo para uma “saideira” antes de rumar para a Argentina. Na capital
paulista, passou pelo Empório Alto dos Pinheiros, pela Cervejaria
Nacional e pelo Frangó, onde o encontrei para uma conversa. E tomou
muitas cervejas artesanais locais. Depois de toda a experiência, seguem
algumas de suas impressões.
As favoritas: pela ordem, ele citou três. A primeira
foi a gaúcha Green Cow IPA, da Seasons, de Porto Alegre (RS). Segundo
Strong, ela poderia tranquilamente ser vendida hoje nos Estados Unidos
como American IPA, por ser uma cerveja equilibrada, mas com uma marca
forte. Já provei a cerveja no #degustwit há algumas semanas, e de fato é
muito boa. Ainda na opinião dele, muitas cervejas brasileiras que lhe
foram apresentadas como india pale ale não tinham defeitos e eram até
boas, mas não poderiam ser classificadas como esse estilo. A segunda da
lista de Strong foi a Colorado Vixnu, recém-lançada Double India Pale
Ale da cervejaria de Ribeirão Preto – Strong conta que a tomou bastante
fresca, com o barril saindo da fábrica para o evento em que compareceu
em Ribeirão, e que ela agradou. A terceira da escalação do americano foi
outra marca da Colorado, mas com uma “covardia”: uma Ithaca, Imperial
Stout com rapadura preta, que tinha três anos de adega.
O mercado brasileiro: Strong disse que, de todas as
cervejas que tomou, não jogou nenhuma fora por defeitos graves, o que,
conta, já teve de fazer nos Estados Unidos. Ele elogiou as criações
locais em geral, tanto em termos de qualidade básica como de ousadia.
A ressalva: o juiz do BJCP, porém, disse que, mesmo
no festival de Blumenau, as cervejas foram servidas muito geladas, o que
tira seu equilíbrio – citou como exemplo a perda de “potência aparente”
do malte no aroma e sabor a baixa temperatura. “É um problema sério.
Imagine que lhe pedem para analisar tecnicamente a pintura da Monalisa
e, quando você começa a tarefa, apagam as luzes. Impossível!”
Críticas ao BJCP: Há alguns meses, houve um
manifesto no Brasil criticando o que se chamou de “obsessão” nacional
pelo guia de estilos do programa norte-americano. Não sei se outros a
fizeram, mas, pela ligação de Strong com o BJCP, a pergunta era
inevitável. O que achava disso? Ele brincou: “Há alguma tradução de
‘guidelines’ (algo como ‘linhas guia’/ N. do blog: leitores gentilmente
sugeriram a opção “diretrizes, normas de procedimento”) para o português
que dê a entender que se trata de uma obrigação imutável? Porque o que
fazemos é justamente o que está escrito ali, guidelines. Há um item no
nosso site que explica essa dúvida.” Ele defendeu a necessidade de
definições de estilos em concursos. “Sem isso, teríamos apenas duelos de
produtores que têm mais fãs. Além disso, o BJCP tem uma categoria
‘livre’, que pode englobar estilos diferentes dos tradicionais.”
Inclusão de marcas brasileiras no BJCP: Strong disse
que planeja, sim, citar mais marcas nacionais como referências de
estilo na próxima atualização do BJCP. Fez, afirmou, algumas anotações a
respeito de certas cervejas que considera relevantes. Mas mudanças no
guia devem sair na praça apenas em 2013.
Falha no sistema: perguntei como o BJCP tratava o caso da Schneider
Original, cerveja de trigo alemã associada à “salvação” do estilo no
Século 19, mas que hoje, mais escura que o padrão das Hefe Weissbiers
Helles, não se enquadra no estilo do guia norte-americano. Strong
admitiu que se trata de um problema, e que já defendeu inclui-la na
categoria como exemplo da marca, mas com a ressalva de cor. O resultado
prático até agora, porém, é inconclusivo.
Epílogo: Levei para ele degustar duas cervejas: uma
Eisenbahn Dama do Lago, com três anos de garrafa, e uma Canoinhense Nó
de Pinho. A primeira, na qual tinha grande expectativa, estava, porém,
bastante oxidada, dominada pelas notas de caramelo. A segunda, em que já
esperava uma careta apesar das explicações históricas, gerou uma
pequena surpresa, pelas fortes notas de cereja no aroma e sabor. Strong
apreciou os elementos mais “distintos” da Nó de Pinho, mas disse que
esperava mais corpo e menos doçura residual.
Fonte: Estadão

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